Autor: Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
fonte:  http://www.arquidiocese.org.br/paginas/v25082006.htm - Acessado em 2006

  

      Poucos exemplos da História eclesiástica são tão ilustrativos como o Iconoclasmo dos séculos 8º e 9º para mostrar como um zelo mal orientado pode chegar a violentar a crença dos fiéis, e como a debilidade dos pastores não traz a luz e a força à vida da Igreja.

     O Iconoclasmo (a quebra de imagens religiosas), assim como tem suas raízes longínquas, anteriores à grande crise dos séculos 8º e 9º, terá também conseqüências posteriores.

     A Carta Apostólica “Duodecimum Saeculum”, do Papa João Paulo II, foi dirigida ao Episcopado da Igreja Católica sobre a veneração das imagens. Com data de 4 de dezembro de 1987, celebrava o XII Centenário do II Concílio de Nicéia. Lemos na introdução: “O acontecimento foi celebrado igualmente com a publicação de uma Encíclica de Sua Santidade o Patriarca de Constantinopla e do Santo Sínodo, iniciativa que evidencia a importância teológica e o alcance ecumênico, ainda atuais, do sétimo e último Concílio plenamente reconhecido pela Igreja católica e pela Igreja ortodoxa. A doutrina definida por este Concílio quanto à legitimidade da veneração dos ícones (imagens) na Igreja merece também ela uma atenção especial, não só pela riqueza das suas implicações espirituais, mas também pelas exigências que ela impõe em todo o âmbito da arte sacra” (n° 1). A seguir, o Papa faz um comovente apelo à união: “O relevo dado pelo II Concílio de Nicéia ao assunto da Tradição, e mais precisamente da Tradição não-escrita, constitui para nós católicos, assim como para os nossos irmãos ortodoxos, um convite a percorrermos, de novo juntos, o caminho da Tradição da Igreja não dividida, para reexaminar à sua luz as divergências, que os longos séculos de separação acentuaram entre nós, e para reencontrar, conforme o que Jesus pediu ao Pai (cf. Jo 17,11.20-21), a comunhão plena na unidade visível” (idem).

     Misturavam-se aspectos verdadeiros da fé com os interesses políticos da expansão do Império, também em regiões onde a significativa presença de judeus ou o ameaçador avanço do Islam não recomendava o culto das imagens.

Na abertura deste II Concílio de Nicéia foi aplaudida a carta do Papa Adriano. Defendeu-se o sentido religioso das imagens, mas também impôs certa moderação. É mérito do novo Patriarca de Constantinopla, Tarásio, que vivia em explícita comunhão com o Papa, haver esclarecido a diferença entre “adoração” e “honrosa veneração”. A adoração é dada só a Deus; a veneração, aos santos e a tudo aquilo que os representam.

 

     Na parte final da Carta Apostólica “Duodecimum Saeculum”, o Papa  João Paulo II aborda, de modo particular, alguns aspectos muito importantes. Assim, “no Ocidente, a Igreja de Roma destinguiu-se, numa continuidade sem interrupção, pela sua ação a favor das imagens, sobretudo no momento crítico em que, entre os anos de 825 e 843, os impérios bizantino e franco se demonstraram ambos hostis ao Concílio Niceno II. No Concílio de Trento, a Igreja católica reafirmou a doutrina tradicional, contra uma nova forma de iconoclastia que então se manifestava. Mais recentemente, o Concílio Vaticano II recordou a posição constante da Igreja a respeito das imagens e da arte sacra em geral” (n° 10). Sobre a situação dos tempos presentes: “Desde há alguns decênios nota-se um surto de interesse pela teologia e pela espiritualidade dos ícones orientais; isso é sinal da arte autenticamente cristã. A este propósito, não posso deixar de exortar os meus Irmãos no Episcopado a ‘manterem o uso de expor imagens nas Igrejas à veneração dos fiéis’ (“Sacrosanctum Concilium”, nº 122-124) e a empenharem-se para que surjam, cada vez mais, obras de qualidade verdadeiramente eclesial. O crente de hoje, como o de ontem, há de ser ajudado na oração e na vida espiritual mediante a visão de obras que procurem exprimir o mistério, sem nunca o ocultar. É esta a razão pela qual, hoje como no passado, a fé é a indispensável inspiradora da arte da Igreja. Ela deve ter a preocupação de falar a linguagem da Encarnação e exprimir, com os elementos terrenos, Aquele que "se dignou habitar na matéria e realizar a nossa salvação através da matéria", segundo a fórmula feliz de São João Damasceno (Discurso sobre as imagens) (nº 11). De particular importância é o seguinte: “A redescoberta do ícone cristão ajudará também a tomar consciência da urgência de reagir contra os efeitos despersonalizadores, e, às vezes, degradantes, que condicionam a nossa vida, na publicidade e nos ‘mass-media’; trata-se de fato de uma imagem que faz chegar até nós o olhar de um Outro invisível e que nos dá acesso à realidade do mundo espiritual e escatológico” (idem).

     E conclui o documento: “Ao recordar a atualidade da doutrina do VII Concílio Ecumênico, parece-me que estamos perante um chamamento à nossa tarefa primordial de evangelização. A secularização crescente da sociedade mostra que ela está se tornando, em larga escala, alheia aos valores espirituais, ao mistério da nossa Salvação em Jesus Cristo e à realidade do mundo futuro. A nossa tradição, que compartilhamos plenamente com os nossos irmãos ortodoxos, ensina-nos que a linguagem da beleza, posta a serviço da fé, é capaz de atingir o coração dos homens e de os levar a conhecer, a partir de dentro, Aquele que ousamos representar nas imagens, Jesus Cristo, o Filho de Deus, feito homem, o mesmo, ontem e hoje e por todos os séculos" (Hb 13,8) (nº 12).

Esses ensinamentos nos fazem refletir sobre nossa vida religiosa. No lar, a presença da Bíblia, de um quadro de Coração de Jesus, de uma imagem de Maria, recorda os valores cristãos, garantia da sobrevivência dos compromissos matrimoniais e educação dos filhos.