Autor: Dom Eugenio Sales
fonte: Jornal do Brasil / Data: 19/08/06

 


 

 

 

No Ano 787 foi CELEBRADO o II Concílio Ecumênico de Nicéia. Nele a Igreja, oficialmente, proclamou a legitimidade do culto às de Cristo e seus santos, confirmando uma prática oriunda dos primórdios do cristianismo.

 

A contestação à doutrina sobre a veneração das imagens nasceu do islamismo. Em 723, o califa Jesid determinou que fossem retiradas, dos teritórios conquistados, todas as representações pictóricas ou plásticas do Senhor e de seus servos. O islã, como os judaísmo, as proíbem. O patriarca católico de Constantinopla, Germano, logo tomou posição  na defesa de um costume em vigor entre os fiéis. O povo cristão venera imagens como estímulo à oração e não, apenas, como uma exposição de aos iletrados ou uma espécie de instrução religiosa. E além do aproveitamento da arte, para difundir o ensinamento da fé. Os primeiros cristãos sempre utilizaram as pinturas e escrituras. Alguns elementos receberam uma nova interpretação, como o simbolismo do pavão, que prefigura a eterna primavera, como imagem da Ressurreição, presente na antiquíssima Basílica de São Clemente, em Roma. Do Antigo Testamento, a imagem de Jonas e da baleia atestava a fé na Ressureição, e pode ser encontrada, por esemplo, nas catacumbas de São Calixto e São Sebastião. Várias cenas do Novo Testamento, as imagens do Bom Pastor e de Nossa Senhora foram pintadas nesses refúgios, como objeto de veneração.

 

A estima desse culto era tal que o imperador Leão III, de Constantinopla, ao aliar-se aos iconoclastas, provocou uma revolta no Exército, sufocada somente a 28 de abril de 727.

 

Em sua Carta Apostólica Duodecimum saeculum, de 4 de dezembro de 1988, o papa João Paulo II assim se referiu ao assunto: " A terrível 'controvérsia das imagens', que dilacerou o Império Bizantino sob os imperadores Leao III e Constantino IV, entre os anos 730-780 e de novo, sob Leao V, de 814 a 843, explica-se pricipalmente pela questão teológica, que desde o início foi seu fulcro" (No 8).

 

Nos primeiros séculos, o cristianismo enfrentou e superou diversas heresias. Uma, o nestorianismo, afirmava a total separação do filho de Maria e do filho de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. E foi condenado pelo Consílio de Éfeso, em 431. Outra, o monofisimo, dizia o oposto:  a natureza humana fora absorvida pela divindade, de modo que em Jesus havia uma só Pessoa e uma só natureza. Esta tese foi refutada pelo Consílio de Calcedônia, em 451. A representação do Redendor em pintura ou de forma plástica poderia - diziam os icinoclastas - induzir os fiéis a esses erros, pela dificuldade e, divisar nessas obras ser Cristo homem e Deus em uma só pessoa, a do Verbo. Ao representar a Humanidade de Cristo, ocultar-se-ia a divindade (nestorianismo); ao contrário, quem tentasse reproduzir somente a divindade, insunuaria que esta absorvera a natureza humana (monofisismo).

 

A Igreja, sem ignorar o perigo do ressurgimento sempre possível de práticas idolátricas oriundas so paganismo recente, admitia que o Salvador e os santos fossem mostrados em representações várias, para favorecer a oração e devoção dos cristãos: " O movimento iconoclasta, rompendo com a tradição autêntica da Igreja, considerava a veneração das imagens retorno à idolatria" (idem).

 

Assim, a crise, que motivou o Concílio Ecumênico Niceno II, foi ocasionada pela supressão da imagens, consequência do avanço muçulmano e de sua formal proibição da representação plástica de Deus. Como elemento complicador, havia as heresias anteriores do nestorianismo e do monofisismo, já superadas.

Aduziam severas determinações do Antigo Testamento sobre o assunto e se esqueciam das transformações oriundas do cristianismo. Temos um exemplo dramático, desta novidade trazida pelo cristianismo quando o Senhor determina: "Levanta-te , Pedro, imola e come!". Pedro, porém replicou: "De modo nenhum, senhor, pois jamais comi coisa alguma profana e impura" (At 10,13-14). O Senhor, porém insistiu e Pedro obdeceu. Várias precrições do Antigo Testatmento, formuladas em vista de circunstâncias existentes na época, como perigo de idolatrica para o povo eleito, foram modificadas por Cristo. No Batismo do centurião Cornélio, Pedro defende, de modo errefutável, a atitude contrária ao texto do Antigo Testamento: " Quem seria eu para poder impedir Deus de agir?" (At 11,17). E integrou na comunidade cristã um gentio, Cornelio.

 

Nos primeiros séculos, diversos preceitos fundamentais em uso no Antigo Testamento, como a circuncisão, foram também supressos ou modificados.

 

O Concílio Ecumênico Niceno II transmitiu dois ensinamentos marcantes: reafirmou o valor da Tradição e a liceidade do culto as imagens.

 

A "tradição eclesiástica escrita e não escrita" é norma para a fé e disciplina da Igreja. O ensino do Mestre foi recolhido pelos quatro Evengelhos e outros escritos do Novo Testamento sem ,contudo, se esgotar. São João (21,23) nos diz: "Há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se forem escritas uma por uma, creio que o mundo não  poderia conter os livros que se escreviam".

 

O Vaticano II, na constituição dogmática Dei Verbum, sobre a "revelação divina", afirma : " A Sagrada Tradição e Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à Igreja" (No 10). Essa declaração faz eco ao Concílio Niceno II.

 

A História da Igreja e História da Arte atestam o culto às imagens. Mais importante que o objeto de veneração é a lição que nos transmitem. Obedecer a esses exemplos é a mais autêntica adoração ao Senhor e veneração a seus Santos.