Autor: Diác. Juranir Rossatti Machado  

 

Fonte: CNBB Leste 1 - Acessado em 2008

 


 

 

 

      Ano passado, 2007, em duas ocasiões, apresentei desprentenciosa palestra, associando Maria Santíssima à Eucaristia. Evidentemente, nessas duas ocasiões, foi impossível uma abordagem exaustiva (e será sempre impossível), em virtude da grandiosidade sem fim do papel de Maria, na história de nossa salvação, e da profundidade sem limites do Mistério Eucarístico. Tenho a convicção de que a Igreja, enquanto peregrina, em direção à Jerusalém celeste, jamais se pronunciará suficientemente sobre os mistérios de nossa fé, entre os quais essa singular associação entre Maria, Mãe de Jesus, e a Eucaristia.

 

          Diante de mim, tenho apontamentos utilizados nas reflexões que fiz durante a palestra a que me refiro. Além dos textos bíblicos a que recorri, baseei-me em ensinamentos do inesquecível Papa João Paulo II, registrados em sua encíclica Ecclesia de Eucharistia (17/abril/2003). É claro que, aqui, neste espaço, não pretendo repetir todas as idéias desenvolvidas; mas quero, sim, apresentar alguns comentários. Com isto, espero estar colaborando para a firmeza de nossa devoção mariana, dentro da perspectiva eucarística. Pequena colaboração; porém, sincera. A exposição segue um pouco o ritmo de minhas lembranças.

 

          Diz-nos o saudoso Papa João Paulo II: “Se quisermos redescobrir em toda a sua riqueza a relação entre Igreja e a Eucaristia, não podemos esquecer Maria, Mãe e modelo da Igreja” (EE, 53). Chama-nos a atenção o significativo emprego do verbo REDESCOBRIR. Soa como uma espécie de grito de alerta contra qualquer eventual esquecimento de que Maria nos conduz à Eucaristia e que a Eucaristia nos conduz a Maria. O Pontífice deixa bem claro caminho para a redescoberta da relação entre Igreja e Eucaristia. Maria é caminho apontado pelo Magistério, para compreendermos a missão eclesial. Ela é Mãe da Igreja, porque é Mãe de Jesus Cristo (Cl 1, 18). Em sua época, Santo Ambrósio (339-397) já orientava a comunidade cristã: “A Mãe de Deus é o tipo da Igreja na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo.”

 

          Contemplando Maria, contemplamos a Igreja; acompanhando-a em sua missão, que finca raízes no Mistério da Encarnação, providenciada por Deus, desde a eternidade (Ef 1, 3-4), sentimos a própria missãso da Igreja. Em sua radical entrega ao Projeto de Deus e em seu seguimento de Cristo, encontram-se modelos de nossa caminhada cristã. Maria coloca-se como serva do Senhor (Lc 1, 38), ensinando a Igreja a colocar-se com a mesma disponibilidade a serviço do Reino de Deus. O coração de Maria alcança os necessitados e seus olhos maternos não os perdem de vista. A Igreja é chamada a ter o mesmo perfil em seu roteiro de missionariedade: sem estabelecer distinções, coração e olhos da Igreja devem abranger todos os homens e todas as mulheres.

 

          Maria é mulher do diálogo com Deus e com as pessoas. Provam-nos os episódios da Anunciação (Lc 1, 6-38) e da Visitação (Lc 1, 39-56). À semelhança dela, a Igreja é chamada a viver a dimensão dialogal. Chamemos à nossa consciência a realidade de que cada um de nós, graças ao Batismo, é Igreja; conseqüentemente, a cada um de nós pertence o compromisso com o diálogo. A Igreja cresce no diálogo. Ninguém se perde no verdadeiro diálogo; mas, nele, todos as pessoas de boa vontade se encontram. A sua ausência debilita a Igreja e enfraquece seus membros. A vida eucarística deve marcar seus passos na dimensão dialogal, buscando a unidade dentro do contexto da diversidade de talentos e ministérios. No âmbito da família paroquial, por exemplo, a não existência de diálogo entre os fiéis, ministros ordenados e não ordenados, é uma triste denúncia de uma grande falta de sintonia entre a vida eucarística e o relacionamento interpessoal. Não nos cansemos com a insistência: vida eucarística combina com diálogo profundo e autêntico.

 

          No ventre da Igreja, Cristo deve ser gerado e encarnado nas culturas humanas, na história do homem, na pluralidade de suas ações. Quem nós recebemos na Eucaristia? Recebemos a Pessoa Divina do Filho, que, no ventre de Maria, na força do Espírito Santo, assume e dignifica a natureza humana, penetra no tempo do homem. Nas veias do Homem-Deus, corre o sangue de Maria. No corpo do Homem-Deus, encontram-se a carne e o sangue de Maria. Diz-nos o Papa João Paulo II, referindo-se ao corpo de Cristo e ao de Maria: “Aquele corpo, entregue em sacrifício e presente agora nas espécies sacramentais, era o mesmo corpo concebido no seu ventre!” (EE, 56) Que palavras maravilhosas e profundas! Elas nos remetem ao que o Apóstolo nos fala, em Gálatas, quando, fazendo menção à plenitude dos tempos, nos fala da Mulher que, em seu ventre, concebe o Filho de Deus (Gl 4, 4)! Graças à maternidade divina de Maria, a Eucaristia está intimamente ligada a ela e a toda a humanidade. Na Eucaristia, recebe-se Deus, porque Cristo é Deus; e recebe-se, igualmente, a humanidade, porque Cristo é, verdadeiramente, homem. Por que não dizer que, na Eucaristia, fazemos renovação de nossa fé no Mistério da Encarnação? A Eucaristia não nos compromete apenas com Deus; coloca-nos na linha do compromisso com o próximo. Dentro desta linha de reflexão, podemos concluir o parágrafo, enfatizando que, através do Mistério da Encarnação, Maria nos conduz ao Mistério da Eucaristia, ensinando-nos a nos apresentar diante dele, levando, em nosso coração, todos os homens e mulheres.

 

          Em nossas breves colocações, frisemos que, nesta íntima relação entre os Mistérios da Encarnação, no qual, de maneira destacada, se encontra Maria, e o da Eucaristia, dentro do qual ela continua presente, sentimos a manifestação de outro grande mistério, o da Santíssima Trindade. Tanto na Encarnação quanto na Eucaristia, realiza-se a vontade do Pai, por meio do Filho, na força do Espírito Santo. Mãe e Filho aproximam-nos do Pai e nos levam a experimentar a presença do Espírito Santo. Levam-nos à comunhão com Deus Uno e Trino e com toda a humanidade.