Por. card. Joseoph Ratzinger, hoje Papa Emérito Bento XVI

Fonte: "Rapporto sulla Fede"  / Agnus Dei

 Primeiro Ponto

 

Reconhecer a Maria o lugar que a tradição e o dogma lhe atribuem significa permanecer profundamente radicados na cristologia original (Vaticano II: "A Igreja, pensando nela com piedade filial e contemplando-a à luz do Verbo, feito homem, com veneração penetra mais profundamente no altíssimo mistério da Encarnação e vai-se conformando sempre mais ao Seu esposo", Lumen Gentium, nº 65).

É, aliás, ao serviço direto da fé em Cristo, e não, portanto, em primeiro lugar por devoção à Mãe, que a Igreja proclamou os seus dogmas marianos: inicialmente a virgindade perpétua e a maternidade divina e, a seguir, após um longo amadurecimento e reflexão, a conceição sem mácula do pecado original e a assunção ao céu. Esses dogmas servem de amparo à fé autêntica em Cristo, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem: duas naturezas em uma só Pessoa. Servem de amparo também à indispensável tensão escatológica, indicando em Maria assunta o destino imortal que a todos nós espera. E servem de apoio também para a fé, hoje ameaçada, em Deus criador que pode livremente intervir também sobre a matéria. Este é, entre outros, um dos significados da hoje e mais do que nunca incompreendida verdade sobre a virgindade perpétua de Maria. Numa palavra, como recorda, também o Concílio: "Maria, pela Sua participação íntima na história da salvação, reúne e reflete, por assim dizer, os dados máximos da fé" (Lumen Gentium, nº 65).

Segundo Ponto

A mariologia da Igreja supõe o justo relacionamento e a necessária integração entre Bíblia e Tradição. Os quatro dogmas marianos têm o seu claro fundamento na Escritura. Temos aqui como que um germen que cresce e frutifica na vida cálida da Tradição, assim como se exprime na liturgia, no sentimento do povo fiel e na reflexão da teologia guiada pelo Magistério.

Terceiro Ponto

Precisamente em sua pessoa de jovem hebréia feita Mãe do Messias, Maria une de modo vital e, ao mesmo tempo, inseparável, o antigo e o novo povo de Deus, Israel e o Cristianismo, Sinagoga e Igreja. Ela é como que o traço de união sem o qual a fé, como acontece hoje, corre o risco de perder o equilíbrio, fazendo com que nós recolhamos o Novo Testamento no Antigo, ou que nos desfaçamos do Antigo. Nela, no entanto, podemos viver a síntese da Escritura inteira.

Quarto Ponto

A correta devoção mariana assegura à fé a convivência da indispensável "razão" com as igualmente indispensáveis "razões de coração", como diria Pascal. Para a Igreja, o homem não é apenas nem somente sentimento, [nem só rãzão,] ele é a união dessas duas dimensões. A cabeça deve refletir com lucidez, mas o coração deve poder ser aquecido: a devoção a Maria "livre de qualquer falso exagero, mas também isenta de uma estreiteza de mente que não considere a singular dignidade da Mãe de Deus", como recomenda o Concílio, assegura à fé a sua dimensão humana completa.

Quinto Ponto

Para usar exatamente as expressões do Vaticano II, Maria é "figura", "imagem" e "modelo" da Igreja. Assim, olhando para Ela, a Igreja defende-se daquele modelo machista de que falava antes e que a vê como instrumento de um programa de ação sócio-política. Em Maria, sua figura e modelo, a Igreja reencontra o seu rosto de Mãe, e não pode degenerar em uma involução que a transforme em partido, numa organização, num grupo de pressão ao serviço de interesses humanos, ainda que nobilíssimos. Se em certas teologias e eclesiologias Maria não encontra mais lugar, a razão é simples: elas reduziram a fé a uma abstração. E abstração não tem necessidade de Mãe.

Sexto Ponto

Como seu destino, que é ao mesmo tempo de Virgem e Mãe, Maria projeta continuamente luz sobre aquilo que o Criador quis para a mulher de todos os tempos, inclusive o nosso. Ou melhor, sobretudo o nosso, em que, como sabemos, é ameaçada a própria essência da feminilidade. A Sua Virgindade e a Sua Maternidade enraízam o mistério da mulher num destino altíssimo, do qual Ela não pode ser deslocada. Maria é a intrépida anunciadora do Magnificat, mas é também aquela que torna fecundo o silêncio e o escondimento. É aquela que não teme ficar ao pé da cruz, que, como realça várias vezes o evangelista, "conserva e medita em Seu Coração" o que acontece ao seu redor. Criatura da coragem e da obediência, é, hoje e sempre, um exemplo para o qual todo o cristão, homem e mulher, pode e deve olhar.