Fonte www.arquidiocese.org br - Acessado em 2008

Autor: Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales 

 

Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales

Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

04/04/2008

 PECADOS CAPITAIS

 
    Na Epístola de São Tiago (3,2) lemos: “Todos nós tropeçamos freqüentemente”, pois os pecados acompanham a vida do homem. O Catecismo os enumera, sob o título “pecados capitais”, sete ao todo. Recentemente fomos surpreendidos por um noticiário acerca desses pecados. Entretanto, logo a seguir, veio a explicação: “O Vaticano não publicou uma nova lista”. E Dom Gianfranco Girotti, do Tribunal da Penitenciaria Apostólica esclarece: “Há outras áreas em relação aos direitos individuais e sociais. Assim, a bioética, não poderia deixar de denunciar algumas avaliações dos direitos fundamentais da natureza humana, através da experimentação e manipulações genéticas, cujos efeitos são difíceis de prever e controlar. Outra área propriamente social é a das drogas, com a qual a ‘psique’ se enfraquece e a inteligência obscurece, deixando muitos jovens fora do circuito eclesial. E a terceira é a das desigualdades sociais e econômicas, pelas quais os pobres se tornam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, alimentando indispensável apelo à justiça social. A área da ecologia também desperta hoje um grande interesse”.

     O pecado, no sentido próprio e verdadeiro, é sempre um ato da pessoa, porque praticado por um homem individualmente considerado, não como integrante de um grupo ou uma comunidade. Ele pode ser condicionado, pressionado, impelido por numerosos e poderosos fatores externos, como também pode estar sujeito a tendências e hábitos relacionados com a sua condição pessoal. Em não poucos casos, tais fatores externos e internos podem atenuar, em maior ou menor grau, a sua liberdade e, conseqüentemente, a responsabilidade e culpabilidade. Entretanto não se pode ignorar esta verdade, para atribuir às realidades externas – as estruturas, aos sistemas – o pecado de cada um. Como ato da pessoa, ele tem as suas primeiras e mais importantes conseqüências no homem, ou seja, na relação deste com Deus. “É certo que se pode falar de ‘egoísmo’ e de ‘vistas curtas’; fazer-se referência a ‘cálculos políticos errados’, a ‘decisões econômicas imprudentes’. E em cada uma destas avaliações nota-se que há um eco de natureza ética. A condição do homem é tal que torna difícil uma análise mais profunda das ações e das omissões das pessoas, sem implicar, juízos ou referências de ordem ética. Esta avaliação, de per si, é positiva, sobretudo quando se torna inteiramente coerente e quando se fundamenta na fé em Deus e na sua lei que ordena o bem e proíbe o mal” (Encíclica “Sollicitudo Rei Socialis, nº 36).

     A complexidade do mundo moderno exige dos cristãos uma atenção especial sobre certas áreas nas quais cresce o pecado. Tomemos alguns exemplos.

     Em Conferência no Colégio Médico de Madrid, o Doutor Bernard Nathanson passou de promotor da prática do aborto para a denúncia dos métodos que levaram à sua liberação nos Estados Unidos. Havia dirigido a partir de 1973 a maior clínica de abortos do mundo. Realizava com a sua equipe 120 intervenções abortistas por dia.

     A Encíclica “Sollicitudo Rei Socialis”, do Papa João Paulo II, publicada a 30 de dezembro de 1987, menciona: “É nisto que consiste a diferença entre o tipo de análise sócio-política e a referência formal ao ‘pecado’ e às ‘estruturas de pecado’. Segundo este último modo de ver, são tidas em consideração a vontade de Deus; o seu plano sobre os homens e sua justiça e misericórdia. Deus, Senhor e doador da vida, exige da parte dos homens atitudes precisas, que se exprimem também em ações ou omissões que concernem ao próximo. E isto está em relação com a ‘segunda tábua’ dos dez Mandamentos (cf. Ex 20, 12-17; Dt 5,16-21). Com sua inobservância, ofende-se a Deus e prejudica-se o próximo, introduzindo no mundo condicionamentos e obstáculos que vão muito além das ações de uma pessoa e do breve período da sua vida. Interfere igualmente no processo do desenvolvimento dos povos, cujo atraso e lentidão devem ser julgados também sob esta luz” (nº 36).

     A Exortação Apostólica “Reconciliatio et Paenitentia”, de João Paulo II, com data de 1984, nos adverte: “Há pecados, no entanto, que constituem, pelo seu próprio objeto, uma agressão direta ao próximo e – mais exatamente, com base na linguagem evangélica, ao irmão. Estes são uma ofensa a Deus, porque ofendem o próximo. A tais pecados costuma-se dar a qualificação de sociais. Neste sentido, é social o pecado contra o amor do próximo, que é tanto mais grave na Lei de Cristo, porquanto está em jogo o segundo mandamento, que é ‘semelhante ao primeiro’. É igualmente social todo o pecado cometido contra a justiça, quer nas relações de pessoa a pessoa, quer nas da pessoa com a comunidade, quer, ainda, nas da comunidade com a pessoa. É social todo pecado contra os direitos da pessoa humana, a começar pelo direito à vida, incluindo a do nascituro, ou contra a integridade física de alguém; todo o pecado contra a liberdade de outrem, especialmente contra a suprema liberdade de crer em Deus e de o adorar; todo pecado contra a dignidade e a honra do próximo. É social toda agressão ao bem comum e contra as suas exigências, em toda a ampla esfera dos direitos e dos deveres dos cidadãos. Pode ser social tanto o pecado de comissão como o de omissão: da parte dos dirigentes políticos, econômicos e sindicais, por exemplo, que, podendo, não se empenhem com sabedoria no melhoramento ou na transformação da sociedade, segundo as exigências e as possibilidades do momento histórico; como também da parte dos trabalhadores que faltem aos seus deveres de presença e de colaboração, para que as empresas possam continuar a proporcionar o bem-estar a eles próprios, às suas famílias e à inteira sociedade” (nº 16).