Por Pe. Sergio Tani(*)
Fonte: www.visitadopapa.org.br - Acessado em 2008

Um processo de canonização realizado na Igreja Católica não se trata de mera formalidade ou simples burocratização. A história da Igreja nos revela a importância da realização de um verdadeiro processo, para que, ao final, a mesma Igreja possa reconhecer como um grande dom de Deus, a existência de mais um santo e apresentá-lo ao culto público de todos os fiéis.


Até o século XI, os santos eram reconhecidos como tal e apresentados ao culto público diretamente pelas Igrejas locais (Dioceses) com a aprovação por parte dos Bispos Diocesanos. A partir do século XII, mais precisamente com uma intervenção do Papa Alessandro III, a Igreja reserva ao Papa a autoridade e o poder de reconhecer uma pessoa como “santa”, com a finalidade de manter uma uniformidade no culto em toda a Cristandade e para evitar abusos e dar maior segurança aos fiéis quanto à idoneidade daqueles que seriam canonizados.


Foi a partir do século XIV que teve início o culto de alguns santos somente em âmbito local (nas dioceses ou congregações religiosas dos próprios beatos), antes que fosse completado o processo de canonização, dando-se origem, propriamente, ao assim chamado processo de beatificação.Atualmente, podemos enunciar alguns passos fundamentais que conduzem a canonização de um santo, que norteiam a Igreja a fim de que esta, através da autoridade do Papa, possa finalmente proclamar um “santo”, tal como ocorreu com o nosso futuro São Frei Galvão.


O primeiro passo é também chamado de “fase diocesana”, ou seja, o processo inicia-se na diocese local onde morreu o Servo de Deus, e ao menos depois de cinco anos de sua morte. Nesta fase haverá de se recolher todos os documentos, escritos (editados e inéditos, devidamente estudados por alguns peritos em teologia), e vários testemunhos de pessoas que eventualmente tenham convivido, ouvido ou visto diretamente o Servo de Deus (são as chamadas testemunhas oculares ou “de visu”), ou que ao menos tenham ouvido por meio de terceiros sobre a vida e fama de santidade do Servo de Deus (são as chamadas testemunhas que ouviram daqueles que viram ou conviveram com o Servo de Deus ou “de auditu”).


Recolhe-se todo o material que seja suficiente para provar existência da fama de santidade e o exercício heróico das virtudes cristãs. Todo este material é reunido e enviado à Congregação da Causa dos Santos, analisado e re-estudado por outras três comissões: a histórica, a teológica e a assim chamada “Congregação dos Cardeais e Bispos” membros da citada Congregação. Uma vez aprovado, aguarda-se o assim chamado “milagre”.O segundo passo é a espera do milagre. Para que o Servo de Deus seja reconhecido como “Beato”, deve-se provar a existência de um milagre realizado pela intercessão do Servo de Deus. Todo o processo sobre o milagre deverá realizar-se na Diocese onde ocorreu o suposto milagre.


Por “milagre” entende-se um fato inexplicável segundo as leis da natureza, realizado por Deus, e pela intercessão do Servo de Deus. Este milagre possui algumas características de grande relevância: deve ser um fato, normalmente uma cura, que deve ser instantânea, perfeita, duradoura e não explicável cientificamente. Este suposto milagre é analisado por uma comissão de médicos do próprio país, que emitirão um parecer a ser encaminhado ao Vaticano. Lá chegando, será novamente estudado o caso em questão por uma comissão em geral de cinco médicos, que também emitirão o parecer próprio.Note-se que aqui o que realmente interessa neste parecer não é que afirmem a existência de um milagre, mas que concluam por uma impossibilidade científica de explicação. É um parecer propriamente “científico”. Uma vez aprovado o milagre para a beatificação pela Congregação Ordinária de Cardeais e Bispos, o Servo de Deus é proclamado “Beato” pelo Santo Padre, que atualmente tem delegado esta tarefa ao Cardeal Prefeito da Congregação para os Santos (Cardeal Saraiva Martins).


Pode-se dizer que a beatificação consiste na concessão de um indulto, em força do qual se permite a um grupo de fiéis render culto público a um Servo de Deus. Esta é a primeira etapa para que se possa chegar à canonização. Para que esta última se realize, haverá de aguardar por um novo milagre realizado nos mesmos moldes daquele para a beatificação.A canonização, terceiro passo e conclusão deste processo, abre a possibilidade de culto do Beato à Igreja Universal, ccomportando propriamente um “ato dogmático”, ou seja, trata-se de um juízo infalível do Papa que apresenta a todos os fiéis da Igreja um Beato para culto público, proclamando, assim, que uma determinada pessoa encontra-se na glória de Deus, por nós intercedendo, e servindo-nos a todos como um fiel e seguro modelo de vida cristã a ser seguido.


A universalidade que gera a canonização, ou seja, o ato de propor para o culto de toda a Igreja alguém que viveu a amizade e identificação com Cristo em grau heróico é o prinipal distintivo do caráter local que possui o culto que se rende aos beatos.É exatamente isto que ocorrerá com o nosso Frei Galvão, que será o primeiro santo brasileiro e proclamado como tal em terras brasileiras. Diz-se justamente que o Papa abriu uma exceção canonizando o Beato Frei Galvão no Brasil, porque geralmente as cerimônias de canonização são realizadas em Roma, por decisão do atual Pontífice.


Tal como bem afirmou Dom Manuel Parrado, Administrador Apostólico da Arquidiocese de São Paulo, “o Papa abriu uma exceção e está trazendo um grande presente ao povo brasileiro”. Esta delicadeza para com o povo brasileiro demonstra uma vez mais sua caridade pastoral e verdadeiro espírito de pastor, que não somente conduz, mas quer estar junto de suas ovelhas, dando-nos um grande presente, o dom de Deus que representa a canonização de nosso Beato Frei Galvão.


(*) Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma, Professor de Direito Canônico na Pontifícia Faculdade de Teologia N. Sra. da Assunção e no Instituto de Direito Canônico “Pe. Dr. Giuseppe Benito Pegoraro”, Defensor do Vínculo no Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de São Paulo


Inforgrafico ( fonte: http://noticias.cancaonova.com/como-funciona-um-processo-de-canonizacao/)