Autor: D. Eugênio de Araújo Sales
Fonte: Jornal "O Dia" - 07.04.2001
Transmissão: Antonio Xisto Arruda (Agnus Dei)


      O Domingo de Ramos nos faz respirar a atmosfera do sagrado, embora vivamos em um mundo profundamente secularizado e distante de Deus. Esse dia é um apelo a nós, cristãos, para refletir sobre a missão de testemunhar a grandeza do sacrifício de Cristo para a redenção da humanidade.

      A celebração nos induz a participar, pela Liturgia, da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Tudo nos fala da vitória do domingo seguinte, pelo simbolismo dos ramos, aclamações, louvores festivos, hosanas ao Messias que vem como rei, envolto em gestos de intensa humildade. São sinais da bênção de Deus, que nos acompanha no decorrer do ano litúrgico. O rito pede que os fiéis, exultantes no Cristo, possam entrar com Ele na Jerusalém celeste: "Seguindo com alegria o Cristo nosso rei, por meio dEle cheguemos à eterna Jerusalém".

      Etérea, em sua notável obra, escrita no final do século IV, provavelmente entre 380 a 390 DC, dá-nos notícia da procissão de Ramos, realizada em Jerusalém. Espalhou-se por todo o mundo, sempre revivendo o fato histórico.

      Em nossos dias, há um aspecto novo que se difunde no universo: a presença da juventude. Este ano, é o XVI Dia Mundial a ser celebrado, em nível diocesano, e tem por lema "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-me" (Lc 9,23).

      A cada dois anos, há uma Jornada, em âmbito universal. Assim ocorreu, por ocasião do Grande Jubileu.

      Uma característica do pontificado de João Paulo II é seu frutuoso contacto com os jovens. A última comemoração, em Roma, especialmente o encerramento do XV Dia Mundial, em Tor Vergata, com a presença de dois milhões e meio de jovens, fala por si. Na penúltima Jornada Mundial, a XIV, em Paris, jamais essa cidade havia assistido a tamanha concentração de jovens, em toda a sua história.

      Essas celebrações anuais me fazem refletir sobre essa faixa etária, a falsa visão da realidade que nos é dada, através dos meios que influenciam a opinião pública. Apresenta-nos os fracassados. São informações que favorecem uma propaganda derrotista em favor da destruição das estruturas morais. Entretanto, à margem do noticiário e das estatísticas, cresce por toda parte, contrariando interesses e justificativas de derrotas, uma outra juventude, fiel a Cristo. Ela está presente, até aqui no Rio de Janeiro.

      O papa, em 14 de fevereiro, enviou sua mensagem, por ocasião deste XVI Dia Mundial da Juventude. São suas palavras: "Por conseguinte, não tenhais medo de caminhar ao longo daquela vereda que o Senhor foi o primeiro a percorrer. Com a vossa juventude, imprimi, no Terceiro Milênio, que agora tem início, o sinal da esperança e do entusiasmo típico de vossa idade".

      A Grande Semana, no decorrer dos tempos, era denominada também Semana Dolorosa, por salientar os sofrimentos, a parte emotiva, às vezes em detrimento da vitória sobre a morte, pela Ressurreição.

     Nos dias subseqüentes, aos cristãos é recordado o espírito penitencial desse período litúrgico, a reconciliação com Deus, pela confissão sacramental. Aqui, como em muitos outros lugares, ao pároco se reúnem sacerdotes vizinhos, para atender os penitentes, em confissão auricular e absolvição individual, após adequada preparação comunitária. Assim determina o Rito Penitencial, normas prescritas pela Igreja. A valorização desse sacramento é um objetivo a ser alcançado na Semana Santa.

      Na quinta-feira, tem início o Tríduo Sagrado. Pela manhã, em todas as catedrais do mundo, celebra-se a Missa do Crisma, com a bênção dos santos óleos. Estes são utilizados nos sacramentos de iniciação cristã: batismo e crisma. Nessa solene liturgia, reúne-se o presbitério, em torno do bispo, para celebrar o sacerdócio. Ao sacramento da Ordem está vinculada a presença real do Cristo Redentor no Santíssimo Sacramento. Na tarde, com a cerimônia do lava-pés, é festejada a instituição da presença real do Senhor na sagrada Eucaristia.

      Nesse dia é já uma tradição o Santo Padre enviar uma carta dirigida a todos os sacerdotes. Com os recursos gráficos modernos, a Arquidiocese multiplica o texto, com a assinatura do Romano Pontífice. E o pastor, com os bispos auxiliares, entrega, em mãos e a cada padre, essa missiva. O Seminário São José também participa dessa rica publicação.

      A Sexta-feira Santa é um dia atípico. O único no qual não se celebra o Sacrifício da Missa, que é substituído pela Ação Litúrgica que nos faz viver a lembrança da crucificação e morte do nosso Redentor. Comoventes são esses atos, atitudes, costumes religiosos em toda a Semana Santa e, em particular, quando comemoramos a morte do Senhor. Embora a renovação litúrgica tenha vindo corrigir desvios, jamais deve, em sua aplicação, suprimir o que não vai em oposição e é parte integrante da cultura do povo. O sentimento religioso, nesses dias, com menos intensidade nos grandes centros urbanos, sobrevive e deve ser conservado. A observância do jejum e abstinência da carne, o silêncio, a abstenção do trabalho, a presença na Procissão do Senhor Morto, são valores de grande importância na preservação da prática religiosa em geral. O aspecto sentimental bem-orientado é fator benéfico à perseverança em nossa fé.

      A característica do Sábado Santo, após a reforma litúrgica, é o grande silêncio do túmulo de Jesus, na expectativa da sua Ressurreição.

      Nos tempos atuais, o turismo na Semana Santa, quando é programado à margem dos atos do tempo litúrgico, torna-se obstáculo ao aproveitamento religioso desses dias extraordinariamente ricos.

      Assim também o costume pouco cristão de usar o fato da traição de Judas para, no grande silêncio em torno do túmulo de Jesus, promover manifestações ruidosas contra males sociais ou pessoas que assim são julgadas pela opinião pública. O respeito às pessoas vivas ou mortas é substituído por ataques, justos ou injustos, exatamente quando celebramos o perdão de Deus que a todos nos beneficia.

      No alarido que caracteriza a sociedade moderna, façamos da Semana Santa um período para recolhimento que nos ajude, pelo arrependimento, a retornar à Casa do Pai ou fortalecer nossa união a Cristo Jesus, que morreu na Cruz para nos salvar.