Atos dos Apóstolos

No seu prefácio o autor dos Atos apresenta o seu escrito como continuação de uma única obra dedicada a Teófilo (At. 1,1; cf. Lc 1,3). A consideração do tema de ambos os volumes e da estreita semelhança de estilo e vocabulário corrobora o sentido óbvio do prefácio. O titulo da obra – "Ato de Apóstolos" – descreve bem um livro que faz seqüência aos "Atos e Palavras de Jesus" (cf. At. 1,1) – o evangelho. A tradição antiga é unânime em atribuir os Atos a Lucas, o autor do terceiro evangelho. Quanto à data, é determinada pela atribuída ao evangelho: fica em torno do ano 80 d.C. algumas passagens do livro dos Atos dão a entender que seu autor acompanhou Paulo em alguns momentos de suas viagens missionárias. Com efeito, em algumas passagens, fala-se de "nós" que estamos viajando: não só Paulo, mas também a pessoa que está escrevendo o relato.

Se é assim, então Lucas, que aparece junto a Paulo em outros momentos, teria acompanhado o Apostolo durante uma parte de sua missão entre os gentios e então. Posteriormente, completando o seu relato sobre o inicio da igreja na Palestina, teria colocado por escrito os dados mais importantes desta missão.

Alguns estudiosos, no entanto, duvidaram que fosse realmente um companheiro de Paulo o escritor do livro. Pois parecem faltar dados importantes ou haver diferenças para com dados que aparecem em outros escritos, como nas Cartas Paulinas.

 

O ESQUEMA

Os Atos se dividem em duas partes. No começo de sua segunda jornada missionária (15,36) vamos encontrar Paulo, oficialmente reconhecido o Apóstolo dos Gentios, embarcando numa empresa que é verdadeiramente sua. A partir de então, o livro pode ser considerado a narração de uma jornada que leva de Antioquia a Roma (compare-se com a jornada análoga a Jerusalém em Lc 9,51-19,46). A primeira parte dos Atos não tem a mesma acentuada coerência; assemelha-se mais a um mosaico de episódios vários, todos os quais servem para ilustrar o progresso do cristianismo. Um breve prólogo (1,1s) indica que os Atos forma, com o evangelho, uma única obra, e relembra que todo o conjunto é dedicado a Teófilo. Em At. 1,3 – 11 a conclusão do evangelho (Lc 24,13 – 53) é retomada, ligando entre si os volumes.

 

Os Atos dos Apóstolos

Introdução (1,1-11)

A. I. A Igreja de Jerusalém (1,12-5,42)

II. Primeiras missões (6-12)

III. Barnabé e Paulo (13,1-15,35)

B. IV. A missão de Paulo (15,36-19,20)

V. O prisioneiro de Cristo (19,21-28,29)

Epílogo (28,30s)

 

a) O livro se inicia falando da primeira comunidade cristã em Jerusalém (At. 1,1-5,42). Aí o Evangelho começa a se difundir entre os judeus, de modo particular pela ação de Pedro e João. A primeira comunidade cristã inicia sua vida marcada pelo amor fraterno e pela fidelidade ao Senhor. Os cristãos, por outro lado, já começam a sofrer as primeiras hostilidades e cresce a oposição á mensagem do Evangelho.

 

b) A seguir o livro mostra que o Evangelho começa a se difundir para além de Jerusalém: para Judéia, a Samaria e a Síria (At. 6,1-12,25). Aqui se destacaram como evangelizadores, além de Pedro, os sete escolhidos para auxiliarem os Apóstolos, dentre os quais sobressaem Estevão e Filipe. Nesta parte é narrada pela primeira vez a conversão de Paulo e tem lugar a primeira grande perseguição à comunidade crista. É em virtude desta perseguição que os cristãos, fugindo chegam a outras regiões, levando consigo a Boa nova, de modo que a própria perseguição se tornou instrumento, na providência divina, para difusão do Evangelho. Neste momento a pregação do Evangelho ultrapassa a fronteira do mundo judaico e atinge territórios pagãos. É Pedro aquele que abrirá as portas do Evangelho ao mundo pagão, ao reconhecer, oficialmente, que também aos pagãos é dado o Espírito Santo.

 

c) A partir do capítulo 13, tem lugar o relato das viagens missionárias de Paulo. A terceira parte do livro (At. 13,1-15,35) versa sobre a primeira viagem. O Evangelho, que já ultrapassara as fronteiras do mundo judaico, ultrapassa agora as fronteiras da Palestina, chegando à Ásia menor. Entra então em contato, grandemente, com populações pagãs. É aí que surge a necessidade de se esclarecer a relação dos pagãos convertidos com o judaísmo, com a lei de Moisés. A assembléia dos Apóstolos em Jerusalém decide que os pagãos, ao se fazerem cristãos, não estão obrigados a aceitar as prescrições judaicas.

 

d) A seguir, na quarta parte (At. 15,36-20,38), são narradas a segunda e a terceira viagens missionárias de Paulo. Mostra-se difusão do Evangelho com a fundação de comunidades cristãs em grandes centros da Ásia Menor, na Macedônia e Grécia. Aqui o Evangelho encontra de cheio a cultura helenista, pagã. Em At. 19, 20, o autor assim resume o trabalho dos missionários:

 

"A palavra do Senhor crescia e se firmava poderosamente."

e) A última parte do livro versa sobre a prisão de Paulo e sua chegada a Roma (At 21,1-28,31). No retorno de sua terceira viagem, Paulo é preso em Jerusalém e daí conduzido a cesaréia, onde fica prisioneiro por dois anos.

 

HISTORICIDADE

Haverá quem diga que o objetivo de Lucas era esboçar a historia dos primórdios cristãos – o que, aliás, é verdade, mas só até certo ponto, porque é óbvio que ele não teve intenção de escrever pormenorizadamente a historia da igreja primitiva. Não devemos imaginar que os Atos sejam, ou que seu autor quisesse que fossem, uma história eclesiástica. Ao historiar em linhas gerais a expansão da igreja, sabe que seu crescimento se devia a ação do Espírito Santo (2,47; 9,31); e o livro nos mostra como o Espírito Santo continuou a obra começada por Jesus, porque foi ele quem guiou os Apóstolos na sua tarefa missionária. Toda a obra de Lucas (Evangelho e Atos) é teologia da história da redenção.

A partir destas constatações, pode-se dizer que o livro dos Atos dos Apóstolos não pretende ser um relato completo acerca dos feitos dos Apóstolos, nem deter-se exclusivamente nos Doze, mas concentra-se em alguns personagens, mostrando assim, como que em " flashes", as ações de alguns que se constituíram pedras importantes no desenvolvimento da evangelização e na consolidação da igreja nas suas origens. Dentre eles, destaca-se Pedro e Paulo. Até At. 12, 17, Pedro ocupa o primeiro plano. A partir de então, o livro se concentra na figura de Paulo, descrevendo suas viagens missionárias, até sua chegada, como prisioneiro, a Roma (capítulos 13 a 28).

 

O livro dos Atos é parte de uma obra mais ampla

Se olharmos as primeiras palavras do livro doa Atos e as compararmos com o inicio do Evangelho segundo Lucas, percebemos que entre as duas obras há uma ligação:

 

"Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós – conforme no-los transmitiram os que, desde o principio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra-, a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebestes" (Lc 1,1-4).

 

"No primeiro livro, ó Teófilo, apresentei tudo quanto Jesus fez e ensinou, desde o princípio, até ao dia em que deu ordem aos Apóstolos que havia escolhido sob a ação do Espírito Santo, e foi elevado ao céu" (At. 1,1-2).

 

No inicio de ambos os livros é mencionado um certo "Teófilo", o que liga já de imediato as duas obras e coloca o Evangelho segundo Lucas como sendo o "primeiro livro" de que fala o início de Atos. De fato, é dito que nesse primeiro livro foi narrado o que Jesus fez e ensinou durante sua vida pública até a ascensão: este é realmente o conteúdo de Lucas. Se considerarmos ainda a maneira de se expressar (linguagem e estilo) e as concepções teológicas das duas obras, confirmamos que se tratam, realmente, de obras apresentadas, ou melhor, de uma única obra em duas partes, a primeira referindo-se à vida e obra de Jesus (o Evangelho) e a segunda apresentando o desenvolvimento da pregação do Evangelho nos primeiros tempos da igreja (Atos). É assim que livro dos Atos deve ser compreendido levando em consideração o Evangelho segundo Lucas.

 

Variações no texto do livro dos Atos

Antes da invenção da imprensa, todos os escritos eram copiados à mão. Também a Bíblia foi copiada desta maneira, milhares de vezes. Com estas cópias sucessivas, por foram introduzidas pequenas modificações no texto, seja por descuido daquele que copiava, seja intencionalmente, pensando dever melhorar um texto que lhe parecia não muito bom. Por isso é necessário um estudo destes manuscritos antigos, para, comparando-os, chegar ao texto mais próximo daquele que originalmente foi escrito. Este trabalho foi feito também para o livro dos Atos.

 

A finalidade dos Atos dos Apóstolos

O livro em sua totalidade mostra que a missão cristã se desenvolve partindo de Jerusalém e chegando a Roma, passando pelos grandes centros em direção ao Ocidente. Dá-se cumprimento, assim, às últimas palavras de Jesus antes de subir ao céu:

 

"Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra" (At. 1,8).

Se, como já se viu o livro deve ser lido como continuação do Evangelho de Lucas vale também para o livro dos Atos e mostra, dessa forma, a perspectiva em que deve ser lido. Diz Lucas que escreveu de modo ordenado para que se pudesse "constatar a solidez do ensinamento recebido" (Lc 1,4). Em Atos, Lucas pretende, portanto, oferecer aos cristãos um relato ordenado que sirva como garantia de solidez da mensagem cristã recebida. Não se trata de um simples relato histórico, no sentido de uma crônica diária dos feitos dos Apóstolos e dos primeiros missionários. Mas também a fé não pode encontrar solidez se há a manipulação de dados ou se estes são simplesmente inventados.

 

Destinatários da evangelização

O anuncio do evangelho, a ser realizado pela igreja no tempo desde a ascensão de Jesus até a sua parusia, parte do envio dos discípulos, sob a guia do Espírito Santo (cf. At. 1,8).

 

Os grandes missionários de Atos são Pedro e Paulo. No inicio, Pedro, como os outros Apóstolos, prega somente aos judeus. Mas é ele que, logo mais, abre aos pagãos o caminho do Evangelho: na assembléia dos Apóstolos em Jerusalém, momento importante na expansão do Evangelho, em que os pagãos são admitidos sem precisarem submeter-se às praticas judaicas, Pedro tem uma palavra decisiva:

 

"Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, aprouve a Deus, entre vós, que por minha boca ouvissem os gentios a palavra da Boa Nova e abraçassem a fé (At. 15,7)".

 

Paulo é missionário porque Deus tem um plano de salvação que quer ver realizar-se. Paulo dirige-se, sobretudo ao mundo fora da Palestina: o Evangelho se dilata sempre mais. No último discurso, antes de ser preso em Jerusalém, sintetiza a sua missão:

 

"De forma alguma considero preciosa a minha vida, contanto que leve a bom termo a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus: dar testemunho do Evangelho da graça de Deus" (At. 8,4).

 

Junto com Paulo estão também Barnabé, Timóteo, Tito... Mas missionários são também muitos outros, que espontaneamente pregam o Evangelho a partir da perseguição havida após a morte de Estevão:

 

"Os que haviam sido dispersos iam de lugar em lugar, anunciando a palavra da Boa nova" (At. 8,4).

 

Conclusão

A finalidade de Lucas ao continuar o Evangelho com o livro dos Atos não é simplesmente completar a história de Jesus falando do desenvolvimento das primeiras comunidades cristãs, mas mostrar a expansão da mensagem de Jesus Cristo, que deve atingir todo o mundo. Dessa forma, é garantido que o Evangelho pregado é o mesmo anunciado por Jesus. Assim, o plano de Deus, iniciado no Antigo Testamento, continua a se desenvolver.

Esse plano de salvação, que teve seu ponto alto na vida, morte e ressurreição de Jesus, continua agora através dos Apóstolos e daqueles que, como os Apóstolos, se constituem testemunhas de Jesus Cristo morto e ressuscitado.

É essa ligação com Jesus Ressuscitado que impele a igreja, também hoje, à missão, dando-lhe a força para enfrentar os desafios dos tempos atuais. Seguindo o caminho cristão, partindo de Cristo, sob a inspiração do Espírito Santo, poderemos ser colaboradores do plano de salvação do Pai, contribuindo para que a Salvação chegue "até os confins da terra" (At. 1,8), na certeza de que o que vem de Deus não poderá ser destruído (cf. At. 5,39).

 

Bibliografia:

Livro: Chave para a Bíblia

Editora: Paulus

Autor: Wilfrid J. Harrington, OP.

Livro: Igreja em Missão

Editora: Nossa Senhora da Penha

Autora: Maria de Lourdes Corrêa